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Artigos: Qualidade 100%

Artigos: “Qualidade 100%”
Por Enrico De Paoli
Foto: Montagem Livia Orsini Taffo / TDM



Hoje não falarei de compressores, plug-ins, microfonação, mixagem, masterização ou qualquer que seja a especialidade dos serviços musicais de cada um de nós. Mas falarei da qualidade deles. Temos a sorte de habitar um país “abençoado por Deus e bonito por natureza”, mas quem é responsável pela qualidade somos nós mesmos (Deus não tem nada a ver com isso...).

Como o Brasil é um país continental e com enorme latitude sócio-econômica, temos grandes espaços para lacunas de qualidade espalhadas por todo lado. E, por não sermos um país com grandes tradições em guerras, desenvolvemos pouco o “orgulho pelo trabalho e pela qualidade” - ou a famosa autocrítica.

Nós, músicos, produtores, engenheiros, sound designers, ou todos os poucos que tiveram a luz de nascer já sabendo para que vieram pra este mundo, normalmente temos esse senso bastante mais aguçado do que a maioria esmagadora que precisa de um emprego para pagar as contas e não vêem a hora de chegar o final de semana para continuarem não fazendo nada. Sorte a nossa.

Difícil dizer o que exatamente compõe um ser que pertence ao grupo dos qualidade 100%. Talvez seja um misto de capacidade de inverter os papéis com a outra parte, somada a honra de apreciar a própria obra, seja ela qual for. Podemos chamar essa soma facilmente de inteligência.

Há algum tempo escrevi um artigo que se chamava algo como “E se o engenheiro de som fosse uma grande corporação?”. Um verdadeiro engenheiro jamais olha o relógio e diz: “Oba! Hora de ir embora”. O verdadeiro engenheiro não consegue ficar bem ao ouvir algo e não gostar. Uma caixa fora do lugar, uma voz que não encaixa na mix ou uma guitarra atrasada descem realmente quadrado. O verdadeiro engenheiro de som não está feliz porque “amanhã é sábado”. Ele transborda de emoção quando ouve sua obra e diz: “Ficou incrível”.

A engenharia da música é uma profissão atípica. Existem excelentes profissionais sem faculdade, sem inglês, sem curso algum. É uma carreira para pessoas sensíveis e extremamente exigentes. Um mixer de sucesso não tem apenas que saber o que é um equalizador. Ele tem que saber falar e acima de tudo, ouvir. Ouvir além das caixas de som, ouvir as pessoas e entender o que elas querem, mesmo quando não dizem. Sim. normalmente elas não dizem e não têm culpa por isso. Nós somos os sensíveis.

Nada me incomoda mais do que o descaso. Do que ser mal atendido. Do que ver um profissional sem a menor preocupação em fazer seu ofício bem feito. E parece que, quanto mais evoluo na minha trajetória, mais percebo a falta de qualidade dos serviços prestados por pessoas que não têm paixão pelo que fazem e, conseqüentemente, pelo que são.

Para se identificar um problema, precisa-se de inteligência. Não é aquela cultura acadêmica, não. É a uma inteligência parecida com a de que precisamos para solucionar problemas na engenharia da música. Apenas o que difere é que, na música não há certos e errados. há o bom gosto. E nas outras áreas, o bom senso. Isso aliás me faz lembrar outro ditado que adoro: “Nada mais firme do que a certeza do ignorante”. Afinal... Com que argumentos provamos a um ignorante que ele está errado?

O artigo desse mês mais parece um grito de revolta. E é. Alem disso, é uma mensagem de votos para que a honra, auto-crítica e orgulho dos bons engenheiros artesãos que temos, ajude a elevar a nossa gente, não só à qualidade 100%, mas também à qualidade e paixão de fazer e de ser. Encerro minha carta com uma frase que muito gosto, que aprendi da famosa empresa Siemens: “Qualidade é quando nosso cliente volta e nosso produto, não”. Mas se o produto voltar... Cuide do motivo com inteligência e carinho à sua solução.
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